Esgotamento sanitário
Depois de 20 anos de polêmica, emissário submarino da Barra da Tijuca, no Rio, entra em operação e começa a eliminar o despejo de “esgotos in natura” no sistema lagunar da região. Sanitaristas consideram a discussão em torno da necessidade de tratamento dos resíduos antes do lançamento no mar uma questão superada, apenas
Uma gota no oceano.
Em 21 de agosto de 1973 o redator-chefe do Jornal do Brasil recebeu uma carta em tom indignado do almirante Paulo Moreira da Silva, então responsável pelas pesquisas realizadas para o lançamento de efluentes do emissário submarino de Ipanema. O almirante dizia-se amargamente arrependido por prestar esclarecimentos à imprensa, que foram utilizados pelos repórteres do jornal como “instrumento de escândalo” contra o estudo feito por ele próprio, dando a entender que as praias de Ipanema seriam contaminadas pelo esgoto a qualquer corrente de vento convergente vindo do sul. Como se vê, a polêmica que cerca o lançamento de efluentes é antiga. E com a recente inauguração da operação do emissário submarino da Barra a questão veio à tona e promete dar muito que falar.
Sanitaristas defendem
Para o engenheiro e diretor técnico da Globaltech Tecnologia Ambiental, Prof. Fernando Botafogo, o assunto já está mais que saturado. “Chega de se apresentar na mídia argumentos tenebrosos sobre os efeitos deletérios de se lançar ao mar esgotos sanitários que só têm, obrigatoriamente, esta destinação final”, exclama. O engenheiro, que é referência quando se fala em disposição oceânica de esgotamentos sanitários no Brasil, nota que o emissário de Ipanema mereceu duas reportagens positivas, onde se verificou que emissários submarinos repetem o fenômeno da ressurgência nos mares. Botafogo explica que em áreas oceânicas o mar apresenta-se como um deserto de vida. Os seres vivos que morrem se precipitam ao fundo do mar, em águas profundas que não são alcançadas pela luz, impedindo assim a possibilidade da multiplicação da vida marinha.
As reportagens publicadas pelo O Globo indicam uma enorme quantidade de espécies marinhas proliferando ao longo do Emissário Submarino de Ipanema e o monitoramento das águas das praias que podem ser influenciadas pela operação do Emissário Submarino de Ipanema demonstram sua não influência negativa em relação ao atendimento dos padrões de qualidades das águas estabelecidos por Resolução Conama “, diz.
Fernando Botafogo também reclama que as escolas de engenharia sanitária não ensinam o que se denomina como sistemas de tratamento de esgotos sanitários com emprego de emissário submarino. “Isso leva a erros como, por exemplo, o da Laguna de Araruama, com o lançamento de efluentes ‘tratados’ de forma secundária - o que reduz a concentração de organismos patógenos e não de micro nutrientes - resultando em um exagerado crescimento de algas que consumindo o oxigênio das águas veio a promover significativa mortandade de peixes. É um erro que vai se repetir na implantação de três estações de tratamento a nível secundário, no Recreio dos Bandeirantes e Jacarepaguá, que irão lançar seus efluentes tratados, fartos de micro nutrientes, nas lagunas de Jacarepaguá”, adverte.
O pesquisador indica a leitura do protocolo de Anápolis (1999), que considera que emissários longos apresentam-se como uma alternativa de baixo risco à saúde humana, desde que se apresenta muito pouco provável um banhista entrar em contato físico com efluentes sanitários em seus estados brutos ou tratados.
O perito em engenharia sanitária do Ministério Público da União e Professor do CEFET-RJ, Jorge Paes Rios, concorda. Segundo ele, o lançamento dos efluentes sem tratamento secundário ou terciário em alto mar não prejudica a natureza: “Trata-se do ciclo biológico normal. Tudo nasce, morre, decompõe, e o ciclo recomeça. O oceano é uma fonte riquíssima em oxigênio e tem condições de recomposição. A Estação de Tratamento de Esgoto (ETE) apenas acelera a autodepuração do esgoto gastando energia. Mas isso só é necessário se o rio ou mar onde esse efluente é despejado não possui capacidade de absorção. No mar aberto esse esgoto não faz nem cosquinha no ecossistema”, esclarece.
Jorge Rios observa que é possível calcular a hidráulica ambiental no lançamento de efluentes através de modelos físicos, matemáticos ou híbridos. São métodos utilizados no mundo inteiro, e permitem avaliar os impactos ambientais de lançamento tanto de esgoto quanto, por exemplo, de água quente de uma usina nuclear. Em todos é preciso um longo estudo, de pelo menos um ano, no campo onde será lançado o efluente. Trata-se da efetiva medição de vários aspectos: variação das correntes, marés e ondas da região; características físico-químicas da água; a flora e fauna existentes; a batimetria (medição da profundidade do oceano), e a sedimentologia do local.
Nesse sentido, o engenheiro observa que os chamados tratamentos primário, secundário e terciário são feitos naturalmente pela disposição oceânica. E ressalta seu custo elevado. Jorge Rios dá o exemplo de um emissário de porte médio, com cerca de 3,0 m³/s: o emissário em si custaria US$ 6 milhões. Com micro-peneiras para um tratamento prévio, onde se recolhem grande parte dos sólidos, esse valor subiria para US$ 9 milhões. Para que seja feito um tratamento secundário convencional o investimento necessário seria de US$ 30 milhões.
O secretário do Ambiente do Estado do Rio, deputado Carlos Minc, explica que o volume de esgoto que já está tendo destino final, depois que o emissário da Barra entrou em operação, representa em torno de 50 piscinas olímpicas cheias, o que já vai permitir que o complexo lagunar da região de Jacarepaguá comece a sobreviver.
O secretário do Ambiente, que sempre teve sua base eleitoral pautada na defesa ambiental, garantiu, durante a inauguração da obra, que o fato de o emissário começar a funcionar sem uma estação de tratamento não compromete a sua eficiência. “Quando for iniciado o tratamento primário completo, nós vamos tirar 45% da carga orgânica. Existe o tratamento secundário e terciário, que é mais caro, mas só é exigido quando o esgoto é lançado em ambiente fechado, como uma lagoa ou um rio de captação de água. Se eu lanço a cinco mil metros, posso fazer apenas o tratamento primário”, afirmou.
Para saber mais:
http://www.sima.kit.net/html/artigos.htm
http://www.profrios.kit.net
Rios, J. L. P. – "Modelos Matemáticos de Autodepuração de Cursos d’Água” – LNEC – Lisboa, 1974.
Gonçalves, F. B. e Souza, A. P. – "Disposição Oceânica de Esgotos" - ABES – Rio de Janeiro, 1990.
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BOX – Emissário Submarino – Complexo lagunar começa a renascer
Polêmica à parte, o fato é que os moradores da Barra da Tijuca e Jacarepaguá, na Zona Oeste do Rio, comemoraram a inauguração do emissário submarino, juntamente com o corpo técnico da CEDAE, depois de longos anos de pendências jurídicas e muita polêmica em torno da obra. O sistema vai tratar, inicialmente, cerca de 25% do esgoto dos dois bairros – cerca de 600 litros de esgoto por segundo, que deixaram de ser jogados no sistema lagunar da região “in natura” e ganharam destino final. O Emissário Submarino da Barra da Tijuca mobilizou investimentos de R$ 320 milhões na primeira fase. A segunda teve início em maio, e a previsão é de que a obra seja concluída em mais 12 meses. O tratamento primário do esgoto estará implantado antes que o emissário submarino esteja operando em sua capacidade máxima, que será de 5 mil litros por segundo, numa profundidade de 43 metros.
Para saber mais:
Carta histórica: http://www.simaerj.com.br
Artigos interessantes: http://www.profrios.kit.net
Livros de referência:
Rios, J. L. P. – "Modelos Matemáticos de Autodepuração de Cursos d’Água " – LNEC – Lisboa, 1974.
Gonçalves, F. B. e Souza, A. P. – "Disposição Oceânica de Esgotos" - ABES – Rio de Janeiro, 1990.